Cenário de guerra começa a ser desmontado no Complexo do Alemão; 180 homens do Bope policiam o local

29 de novembro de 2010 - 11:58 | Postado por:

No primeiro dia útil após a retomada do Complexo do Alemão das mãos do crime organizado, a vida no conjunto de favelas na zona norte do Rio de Janeiro parece começar a voltar ao normal. O barulho dos blindados, as rajadas de tiros e o clima de guerra declarada deram espaço para uma relativa calmaria nesta segunda-feira (29).

Na rua Joaquim de Queiroz, um dos principais acessos usados para entrada de saída de moradores, vários trabalhadores eram vistos descendo o morro por volta das 6h30. Muitas pessoas estavam trancadas dentro de casa desde sexta-feira (26), quando o confronto entre traficantes e autoridades se intensificou.

Na padaria que fica na esquina com a estrada de Itararé, fechada desde sexta-feira e cuja fachada foi usada no final de semana como posto do Exército, as portas voltaram a abrir e os habitantes do Alemão novamente tiveram a possibilidade de comprar pão e mantimentos, algo impensável nos últimos dias, marcados por intensas trocas de tiro que fizeram o comércio todo encerrar suas atividades temporariamente na região.

Na banca de jornal, os periódicos da cidade exibem manchetes como “Vencemos” e “A reconquista”. “Vim comprar pra guardar. Vai ser uma recordação. E também queria entender melhor as coisas. Fiquei dentro de casa três dias. Ouvi tudo, mas quero ver o que vai acontecer agora”, disse o pedreiro Rafael de Oliveira, 35 anos.

Alguns blindados ainda podem ser observados fazendo rondas nas principais avenidas do Complexo. O número de policiais militares, no entanto, foi reduzido drasticamente, apesar de 90 homens do Bope terem passado a noite dentro do Alemão – efetivo que está sendo substituído nesta manhã.

Homens da Polícia Civil e do Exército ainda são vistos na manhã desta segunda fazendo revistas em alguns pontos. A estratégia é tentar encontrar traficantes que possam estar tentando sair da comunidade disfarçados. De toda forma, o pente fino é bem mais permissivo do que as varreduras do final de semana, que não poupavam ninguém – senhoras, crianças e até deficientes.

Alguns moradores reclamam da falta de luz, mas os problemas de abastecimento não chegam a atingir todos os endereços das favelas. Já “no asfalto”, os pontos de ônibus estão lotados. Muitas escolas municipais da região continuam fechadas, mas a secretaria estadual permitiu que os diretores de cada unidade tomem a decisão de receber ou não os alunos. Outros serviços públicos começaram a ser retomados, como a varrição.

POLÍCIA DOMINA O ALEMÃO

Por todo lado, o volume de lixo é grande. Muitas vezes os próprios traficantes proibiam a entrada de caminhões de coleta de resíduos. Em uma volta que a reportagem fez pela comunidade já ocupada, encontrou vários pontos usados como lixão, locais em que o cheiro forte lembra carniça e chega a ser insuportável.

Batente
A doméstica Ana Lúcia Espírito Santo, ao lado do fiho Lucas, seguia por volta das 6h30 para o ponto de ônibus. “Trabalho no Leblon e meu filho estuda lá”, dizia. Segundo ela, desde quinta-feira a família inteira se mudou para casas de parentes para evitar riscos com a troca de tiros dos últimos dias.

Como ela explicou, a situação é calma na comunidade. “Voltamos ontem à noite. E está bem tranquilo. Espero que continue assim.”

O casal Manuel Francisco e Neuza da Silva levava pela rua Joaquim Queiroz o recém-nascido Gabriel no colo. “Estamos indo ao mercado. Não tem nada em casa”, dizia ele, fazendo referência ao racionamento forçado que os moradores do Alemão viveram desde quinta-feira. “Foi uma crise necessária. Estou otimista.”

A grande maioria dos habitantes da comunidade, no entanto, continua preferindo não dar entrevistas, mantendo a regra ditada pelo tráfico de não se dar declarações sobre o funcionamento da favela. Entre os habitantes do Alemão, acostumados com as oscilações das investidas governamentais, ainda há a suspeita de que os criminosos podem voltar à região futuramente, inclusive perseguindo as pessoas que neste momento de domínio do Estado denunciam os abusos cometidos na comunidade.

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