Dos campos de futebol para os de soja: Ceni curte dias de fazendeiro

3 de janeiro de 2011 - 14:07 | Postado por:

Quem vê Rogério Ceni com a camisa 1 do São Paulo, brilhando nos campos de grama bem aparada, nem imagina que o ídolo tricolor se transforma quando está na fazenda de seu pai, no interior do Mato Grosso. Nos campos bem diferentes, de plantação de soja, o goleiro curte a tranquilidade, palpita na safra que será colhida em fevereiro e se afasta do agitado dia a dia da metrópole para ouvir os barulhos da natureza.

Os dias na fazenda são preciosos. Ceni fica ao lado de seu Eurides, o pai, e do irmão Rudimar, que ajuda na administração da plantação de soja. Para chegar ao paraíso, o goleiro encara mais de 2 mil quilômetros de estrada – nada de pegar avião – e depois aproveita o que pode nos dias em que fica afastado do telefone, da Internet, das notícias do futebol. Mas não deixa de cuidar da forma física. Afinal, não dá para chegar na reapresentação do São Paulo abaixo do esperado.

– Gosto da convivência com pai, irmãos, família, de fazer um churrasquinho, comer uma boa costelinha, e aproveito também pra treinar porque costela engorda e quem está mais velho, se não se cuida, tem tendência a engordar. Eu, nos últimos dez dias antes da volta ao trabalho já treino em dois períodos. Corro entre cinco e seis quilômetros de manhã, corro mais à tarde, à noite jogo um vôlei na areia, faço treino, já me preparo bem porque o tempo de pré-temporada é curto. Se eu chegar zerado lá, na minha idade, não consigo ficar pronto para iniciar o campeonato em dez, 12 dias. Chego já bem adiantado. Meu peso oscila, mas hoje jogo com 88 kg desde o Mundial de 2005. Eu me preparo pra chegar com 90 e perder dois nestes 12 dias de treino. Tem que ter essa curva para aprimorar, senão a parte muscular sofre – conta o goleiro.
E a lavoura? Ceni também dá seus pitacos. Ele aprendeu a dirigir tratores quando ainda era menino, e sabe como é cada etapa da plantação e da colheita. Mas será que o goleiro já plantou um pezinho de soja?

– Não dá para plantar só um pezinho. Ou planta de monte ou não tem jeito. Mas já passei trator, ajudei sim. Quando eu morava aqui fazia tudo, dirigia desde cedo caminhão carregado, mas hoje é tudo moderno, chique, o operador tem que ser mais capacitado intelectualmente, mas tem mais conforto para trabalhar. Essa plantação aqui vai colher lá pro dia 10 de fevereiro, as sementes têm ciclos, que levam de 90 a 120 dias – ensina o atleta.

No meio da soja, o camisa 1 recebe elogios do pai e do irmão. E revela: deseja também cuidar de gado. “Todo mundo gosta mais da pecuária porque o animal é mais bonito, plantação é algo parado, não tem movimento. Minha sogra é que brinca: ninguém trabalha aqui? Tem que ter paciência e precisa das máquinas. São duas atividades bacanas, e acho que o bom aproveitamento do espaço vem de intercalar as atividades” – explicou Ceni.

Rudimar gosta de ter o irmão famoso por perto e se surpreende com a revelação, mas adianta que já tinha a intenção de investir em pecuária. “Ele entende, é muito interessado, quando está de férias andamos na lavoura, ele pergunta, o agrônomo explica, ele sabe das coisas. Temos intenção de voltar com a pecuária. Tem um que gosta pelo jeito. Estou vendo agora que a preferência dele é o gado (risos)” – sorri o irmão.
Seu Eurides não tem dúvida de que Ceni teria sucesso também se tivesse se dedicado à vida no campo de soja, e não somente no futebol.

– É meu filho, tem sucesso em qualquer atividade, é muito determinado e responsável. Será assim depois que parar de jogar, tenho certeza – ressaltou o pai.

Apesar de amar a vida na fazenda, Ceni confessa que mesmo quando pendurar as luvas e chuteiras, não conseguirá viver tanto tempo longe do agito de São Paulo. Mas sempre estará presente no campo de soja.

– Para morar é mais difícil, mas venho sempre que posso, é um lugar que traz uma paz de espírito muito grande. Uma paisagem como essa é difícil encontrar em São Paulo, principalmente na capital. É complicado ir pra cidade grande e voltar, mas eu gosto demais daqui, venho passar as férias sempre, ficar em contato com eles, aprendo muito. Quando parar espero poder vir mais vezes, por enquanto só em dezembro. Para quem vive no meio de prédios e trânsito, vir para cá é uma terapia. Faz bem para qualquer ser humano – descreve o apaixonado pela natureza.

Na fazenda não tem telefone, mas Ceni fica sabendo pela reportagem que o São Paulo andou devagar na busca por reforços em dezembro de 2010. O goleiro não se envolve com os nomes que são escolhidos pela diretoria e comissão técnica, mas sabe que tem moral e, se for preciso, ajuda a convencer um jogador que considere bom para o clube. Ainda não precisou fazer isso.

– Aqui não toca telefone, os meus não pegam aqui, nunca foi colocado telefone na casa para termos descanso. Nessa época, para ser sincero, nem TV eu assisto, procuro desligar. Sempre tem um amigo que chega da cidade e conta algo. Não participo das contratações e não é minha função, mas se é um atleta que eu gosto, que acho que vem pra ajudar, falo mesmo a favor. O São Paulo é um grande clube pra jogar, raro ter algo parecido, incentivo muito. Se pudermos trazer gente boa, de caráter, de liderança, de desejo de vitória, o São Paulo pode contar comigo.

Com ou sem reforços, depois de sete anos seguidos de Libertadores, o São Paulo vai encarar em 2011 a Copa do Brasil, competição que nunca venceu. Em 2009, Ceni chegou a brincar com a possível chance de ficar fora da Libertadores mostrando a preferência de jogar em Maracaibo (Venezuela) do que em Macapá (Amapá). Desta vez o Tricolor ficará no Brasil.

– Essa questão Maracaibo e Macapá foi uma expressão no sentido de comparar Libertadores e Copa do Brasil, e não os lugares. Todo mundo luta no Brasileiro para quê? Para ser campeão e para ir para a Libertadores, que é o torneio mais importante. Depois de sete anos jogando a Libertadores voltamos com essa experiência de Copa do Brasil. É o que temos para jogar e temos que fazer o melhor. Vamos torcer para que o São Paulo faça um bom time esse ano e já vamos para Campina Grande enfrentar o Treze. Será uma honra poder colocar um título da Copa do Brasil no currículo, mas claro que gostaria de estar na Libertadores – explicou o camisa 1.

Ceni lamentou que o ano de 2010 não tenha sido promissor para o São Paulo como os anteriores. Em 2006, 2007 e 2008, o time foi campeão brasileiro. Em 2009 conseguiu pelo menos a vaga para a Libertadores. O ídolo tricolor diz que alguns erros atrapalharam a equipe, sem dar muitos detalhes.

– Não acho justo apontar um erro ou outro, são erros conjuntos que no fim têm um pouco dali, um pouco daqui e o time perde o campeonato. Não é fácil ganhar, ganhamos três, mas os outros se fortalecem, todo mundo quer ganhar. Mas acho que poderíamos ter ido melhor esse ano.

Se na lavoura Ceni já adiantou que só quer dar palpites, mas não pretende virar fazendeiro, ser presidente do São Paulo é algo que está nos planos?

– Difícil de acontecer. Se fosse só por vontade própria… Mas existe um fator político muito maior que a parte futebolística e para isso tem que se preparar muito. E vir para cá de vez depois de morar na cidade grande também é difícil, mas vou vir com mais frequência. Por enquanto a grama está mais baixa lá no meu campo.

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