Faltam mais de 80 mamógrafos em MT e déficit dificulta o diagnóstico de câncer

14 de outubro de 2018 - 12:18 | Postado por:

Mulheres de Mato Grosso, atendidas pelo SUS, contam com 53 mamógrafos. O equipamento faz um dos exames mais recomendados para o diagnóstico de câncer de mama, a mamografia. Estes são os que estão a disposição, somados os das redes pública e privada. É pouco.

Portaria Ministerial de nº 1101 de 2002, que estabelece os parâmetros de cobertura assistencial pela saúde pública, preconiza a proporção de 1 máquina para cada grupo de 240 mil habitantes. Como vivem em Mato Grosso 3,4 milhões, de acordo com dados do IBGE de 2018, seriam necessários mais 87 equipamentos para atender à portaria.

O déficit dificulta a vida de pacientes, que recebem a recomendação médica de fazer o exame.

Peregrinação

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Cassia Pardo - outubro rosa

Cássia Pardo, cabeleireira de 51 anos está livre do câncer e faz o acompanhamento

A cabeleireira Cássia Pardo, 51 anos, teve que peregrinar muito por Cuiabá para conseguir fazer a mamografia e para fechar o diagnóstico em 2007. Depois de um ano de angústia, exames pagos por plano de saúde, passar por seis médicos, ela finalmente fez uma mastectomia, que é a cirurgia para remoção da mama ou parte dela devido a um câncer na mama direita. “Hoje que eu já fiz o tratamento, sempre que o médico solicita eu consigo a mamografia, mas a primeira vez é muito difícil”, critica.

Cássia lembra que sentiu um pequeno nódulo na mama enquanto estava deitada na cama. Reclamou com o ginecologista dela que minimizou a descoberta. “Mas o nódulo foi crescendo e eu procurei um mastologista, ele pediu uma mamografia, pelo SUS iria demorar de mais, como tinha Pax Nacional, fiz pelo plano”. O primeiro médico de Cássia também disse para ela não se preocupar, mas ela foi com o exame em outros profissionais, até que um médico do Hospital Júlio Muller a encaminhou para o Hospital de Câncer (HCanMT) e lá desconfiaram do formato do nódulo e pediram uma biópsia. “Até aí já tinha se passado um ano”, revela.

Se puder dar um conselho às mulheres é que se cuidem, corram atrás, não desistam

Cassia Pardo

Hoje, Cássia está livre do câncer e faz o acompanhamento anual. É casada, tem três filhas e 3 netos. “Foi muito sofrimento, mas valeu a pena. Vi minhas filhas casarem e terem filhos. Se puder dar um conselho às mulheres é que se cuidem, corram atrás, não desistam”.

Responsáveis

Segundo a SES-MT, o exame de mamografia é um serviço fornecido pela rede municipal de saúde e não apenas pelo Estado. Os municípios contratam o serviço na rede particular ou realiza em sua unidade hospitalar própria. A reportagem do procurou pela Secretaria Municipal de Saúde de Cuiabá, mas não obteve retorno até a publicação do material.

A assessoria da pasta explicou que a SES administra três Regionais de Saúde: Cáceres, Peixoto de Azevedo e Colíder. Peixoto de Azevedo atende a 5 municípios; Colíder atende 6 municípios e Cáceres atende a 12 municípios.

Há uma fila de espera de 300 pacientes para realizarem o exame de mamografia, do Hospital Regional de Colíder e no Hospital Regional de Cáceres tem capacidade para atender até 300 pacientes/mês com exame de mamografia, entretanto, o hospital tem registrado desistência de 70% dos pacientes agendados pelo SUS e que não comparecem para fazer o exame.

Já o Regional de Saúde de Peixoto de Azevedo são realizados130 exames/mês distribuídos aos 5 municípios da regional, serviço contratado pela SES/MT na rede particular do município.

E o Hospital Regional de Água Boa é administrado por meio de Consórcio Municipal e quem preside o Consórcio é o prefeito ou o secretário de saúde do município.

Hcan 

Graças a uma doadora anônima, o HCanMT oferece mamografias gratuitas para mulheres e o único critério é ter entre 40 e 69 anos. O objetivo é atender mais pacientes e proporcionar a prevenção ao câncer. A mamografia é realizada no Centro de Prevenção e Diagnóstico de Câncer de Mama – Dona Nini Constantino e o serviço é filantrópico e custa cerca de R$ 30 mil por mês.

De acordo com a coordenadora do Centro, Georgiane Andrade, o recurso doado pela empresária e contrato com o Ministério da Saúde garante o atendimento de 300 pacientes ao mês na unidade. Desse total, apenas 20 pelo SUS. “A demanda é sempre muito grande, mas em outubro cresce muito devido à campanha. Nós estamos tendo agenda apenas para depois de 15 de novembro”, cita. Para o agendamento é necessário ir ao Centro com cartão do SUS e documentos pessoais.

A professora e ex-vice prefeita de Cuiabá, Jaci Proença, 52, descobriu um tumor benigno no seio esquerdo em um desses agendamentos no Centro de Prevenção e Diagnóstico de Câncer de Mama do Hcan.  “Eu sempre fiz exames e nunca deram nada. Durante a campanha de 2016 eu sonhei que precisava ir ao Hcan, mas com a agenda atribulada deixei para o final do ano”, lembra.

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Jaci proen�a em tratamento - Outubro rosa

Jaci Proença durante tratamento no Hcan, onde passou por sessões de quimiotarapia e radioterapia desde 2017

Em janeiro de 2017 ela conseguiu marcar uma mamografia para 1º de fevereiro e o exame levantou suspeita do médico que pediu Ultrassom e biopsia que detectou em março o câncer tipo 3 e grau 2. “O resultado do exame saiu no dia 6 e a cirurgia para retirada de um quadrante ocorreu em 26 dias depois”, conta.

Jaci Proença passou por quimioterapia vermelha e branca e 30 sessões de radioterapia. E durante todo o tempo contou com apoio da família e amigos veja vídeo compartilhado nas redes sociais pela família da professora na época do tratamento.

Veja o vídeo

 

Ministério da Saúde

O Ministério da Saúde informa que o SUS oferta atenção integral à prevenção e ao tratamento do câncer de mama. A pasta expandiu a oferta de exames para a detecção precoce do câncer de mama. Em 2017, foram realizadas mais de 4 milhões de mamografias de rastreamento no SUS, sendo 2,6 milhões na faixa etária prioritária preconizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que são mulheres de 50 a 69 anos. Mato Grosso produziu 20.987 mamografias em todas as faixas em 2017 e 11.999 na faixa prioritária.

O Ministério da Saúde recomenda que a mamografia de rotina em mulheres sem sintomas ou sinais de doença em suas mamas (rastreamento), seja feita na faixa etária entre 50 e 69 anos, uma vez a cada dois anos. Em 2017, o Vigitel, pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde por inquérito telefônico com mais de 50 mil pessoas nas capitais do país, aponta que 78% das mulheres entre 50 e 69 anos realizaram mamografia nos últimos dois anos.

O atendimento aos pacientes do SUS deve ser regulado pelas Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde, tendo como objetivo garantir a adequada prestação de serviços à população. Sendo assim, o Estado e/ou do Município deve regular o acesso do paciente conforme a sua necessidade, realizando a programação das ações e serviços de saúde e alocando os recursos de acordo com a quantidade necessária de produção nos diferentes municípios.

Segundo MS, Mato Grosso possui 56 mamógrafos em uso pelo SUS. A compra desses equipamentos pode ser feita com recursos de emendas parlamentares ou com recursos do próprio estado.

Tratamento

O MS aumentou em 100% os valores repassados para exames essenciais para o diagnóstico e para a decisão médica do tratamento dessa doença, como a punção de mama por agulha grossa, biópsia e exame anatomopatológico. Com isso, a expectativa é triplicar o número de procedimentos mais precisos para a identificação do tumor.

Para o tratamento de câncer de mama, o SUS oferece todos os tipos de cirurgia (mastectomias, cirurgias conservadoras e reconstrução mamária), radioterapia, quimioterapia e hormonioterapia. São realizados pelo SUS, anualmente, mais de 623 mil biopsias e cirurgias de câncer,  mais de 2,98 milhões de procedimentos de radioterapia e mais de 1,45 milhão de procedimentos de quimioterapia. É importante ressaltar que em seis anos, mais que dobraram os recursos federais destinados para tratamentos do câncer no SUS, passando de R$ 2,2 bilhões em 2010 para R$ 4,6 bilhões em 2017.

Auto-exame

No Brasil, a orientação atual é que a mulher faça a observação e a autopalpação das mamas sempre que se sentir confortável para tal (no banho, no momento da troca de roupa ou em outra situação do cotidiano), sem necessidade de uma técnica específica de autoexame ou  determinado período do mês. Essa mudança surgiu do fato de que, na prática, muitas mulheres com câncer de mama descobriram a doença a partir da observação casual de alterações mamárias e não por meio de uma prática sistemática de se autoexaminar, com método e periodicidade definidas. A detecção precoce do câncer de mama pode também ser feita pela mamografia, quando realizada em mulheres sem sinais e sintomas da doença, numa faixa etária em que haja um balanço favorável entre benefícios e riscos dessa prática (mamografia de rastreamento).

É importante ressaltar que a recomendação do Ministério da Saúde – assim como a da Organização Mundial da Saúde e a de outros países – é a realização da mamografia de rastreamento (quando não há sinais nem sintomas) em mulheres de 50 a 69 anos, uma vez a cada dois anos. O câncer de mama pode ser detectado em fases iniciais, em grande parte dos casos, aumentando assim as chances de tratamento e cura. É importante que as mulheres fiquem atentas a qualquer alteração suspeita na mama. Quando a mulher conhece bem suas mamas e se familiariza com o que é normal para ela, pode estar atenta a essas alterações e buscar o serviço de saúde para investigação diagnóstica.

Causas

O câncer de mama não tem uma causa única. Diversos fatores estão relacionados ao aumento do risco de desenvolver a doença, tais como: idade, fatores endócrinos/história reprodutiva, fatores comportamentais/ambientais e fatores genéticos/hereditários. A idade, assim como em vários outros tipos de câncer, é um dos principais fatores que aumentam o risco de se desenvolver câncer de mama. O acúmulo de exposições ao longo da vida e as próprias alterações biológicas com o envelhecimento aumentam o risco. Mulheres mais velhas, sobretudo a partir dos 50 anos, são mais propensas a desenvolver a doença.

Rodinei Crescêncio

ARTE MAMÓGRAFOS

Lista de municípios mato-grossenses em que há equipamentos para o exame em mulheres

Localização

Os dados sobre a quantidade e onde estão localizados estes mamógrafos são da Secretária de Estado de Saúde de Mato Grosso (SES-MT). Não há informações se estão todos funcionando. Mas, o déficit já explica a reclamação de muitas mulheres de que é preciso esperar muito tempo para ser realizar o exame que é fundamental no diagnóstico precoce do câncer de mama, o que mais atinge o sexo feminino no Brasil.

Em 2018, a estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca) é o registro de 59.700 novos casos, somente em mulheres. Os homens também podem ter a doença, mas, o índice representa apenas 1% do total. Em Mato Grosso, os dados oficiais apontam 680 novos casos, sendo 220, na Capital.

http://www.rdnews.com.br/cidades/faltam-mais-de-80-mamografos-em-mt-e-deficit-dificulta-o-diagnostico-de-cancer/106483

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