Presos gays têm ala especial, usam roupa feminina e fazem arte em MT

13 de março de 2012 - 10:05 | Postado por:

Com cabelos e unhas pintados, maquiagem e roupa feminina, detentos homossexuais de Mato Grosso conquistaram a oportunidade de expressar a sexualidade em uma ala exclusiva para gays e travestis no Centro de Ressocialização de Cuiabá. O espaço no presídio está em funcionamento há quase um ano e abriga atualmente 15 reeducandos.

A ala dos homossexuais permite a separação dos que assumem esta opção sexual dos demais presos e surge como alternativa para combater a violência e discriminação contra esses detentos. No presídio, eles desenvolvem trabalhos artesanais como a confecção de objetos de decoração em tecido e jornal. Além disso, os detentos também aprendem a fazer acessórios femininos, pintura em tela, trabalhos em madeira e camisetas customizadas.

A equipe de reportagem do G1 teve acesso à ala e acompanhou o trabalho desenvolvido por eles, que recebem o benefício da redução de um dia na pena para cada três dias trabalhados. De acordo com a gerente da unidade prisional, Alvair Maria Barbosa, todo o material utilizado no trabalho realizado pelos presos foi doado por empresas privadas. O artesanato produzido pelos detentos homossexuais, segundo ela, é vendido nas feiras e eventos realizados pela Grande Cuiabá.

detento homossexual em Cuiabá (Foto: Kelly Martins/G1)Material produzido pelos detentos é vendido em
feiras em Cuiabá (Foto: Kelly Martins/G1)

Um dos detentos da ala gay tem 19 anos e está preso por um homicídio cometido em Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá. “Me sinto valorizada e respeitada aqui. Também tenho a oportunidade de aprender uma profissão e poder seguir com ela lá fora”, destacou o detento, o primeiro a ser encaminhado para a ala especial, há um ano.

O material que mais gosta de produzir, relatou o detento gay, são tiaras. De diversas cores, estampas e delicadas, o acessório, conforme ele, se tornou um dos principais itens vendidos. Há também o artesanato produzido com fuxico que, segundo outro reeducando travesti, de 38 anos de idade, já se tornou especialista. “Sou cabeleireiro, mas gostei muito de aprender este tipo de artesanato e estou me saindo muito bem”, garantiu.

Espaço exclusivo
A gerente da unidade disse em entrevista ao G1 que a criação da ala foi feita a pedido do Centro de Referência de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros, da Secretaria Estadual de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh), por meio do projeto “Resgatando a Dignidade”. De acordo com a secretaria, Mato Grosso é o segundo estado a criar o atendimento à comunidade carcerária LGBT e o primeiro a normatizar medidas protetivas como políticas públicas. Uma ala especial para o público LGBT já existe desde 2009 em um presídio de Belo Horizonte (MG).

O respeito, a saúde mental e psicológica são o mais importante”
Alvair Maria Barbosa, diretora

O reeducando passa inicialmente por uma triagem realizada por psicólogos para poder ir para a ala especial. A diretora explica que o objetivo está em combater a violência contra a população LGBT dentro do sistema prisional da capital. “O respeito, a saúde mental e psicológica são o mais importante. Dessa forma o projeto surgiu da necessidade de se ter estratégias voltadas para tentar intervir na vulnerabilidade desse público que já sofre com a discriminação”, frisou.

Além da valorização da autoestima, segundo Aldair Barbosa, os reeducandos mudaram o comportamento dentro da unidade. “Antes eles eram mais agressivos. Atualmente, eles se sentem mais respeitados e por conta disso participam de todos os projetos que o sistema prisional oferece”, pontuou. Ela ressalta que a participação é opcional como ainda a adesão à ala pelo detento também é espontânea.

Integração
Para a coordenadora regional do Centro de Referência LGBT, Cláudia Cristina Carvalho, a ideia é retirar os reeducandos homossexuais da situação de risco e de violência. Porém, garante que não há privilégio aos presos que integram a ala e nem que ocorra segregação. “Tratam-se de pessoas que já lutam contra a violência sexual e psicológica. Com esse espaço, eles podem ter a oportunidade de apresentar a sexualidade e não são mais obrigados a se vestir, por exemplo, como homens da forma como as outras alas masculinas exigem”, observou. os outros [detentos homens] e possuem, apenas, um espaço especial por um determinado período”, avaliou a coordenadora.

A secretária-adjunta de Justiça e Direitos Humanos, Vera Araújo, reforça que o estado discute o projeto de instrução normativa da ala especial e prevê ampliação para outras unidades prisionais mato-grossenses. Contudo, não há prazo definido. A secretária enfatiza que solicitou ações que garantam os direitos humanos e combatam toda forma de degradação por causa da orientação sexual do gênero da pessoa.

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